Publicidade

Luís Cardoso – Bastidores da notícia

Bastidores de notícias de política, judiciário, crime e esportes.

Busca em todo o site

Políticos querem que suas campanhas sejam pagas pelos brasileiros

Política
 

Revista Época

Eles deram as costas ao eleitor

Parlamentares trabalham para que suas campanhas sejam pagas pelos brasileiros. Isso não é mudança na política. É busca de sobrevivência à Lava Jato

DÉBORA BERGAMASCO E AGUIRRE TALENTO COM FLÁVIA TAVARES

>> Trecho da reportagem de capa de ÉPOCA desta semana:

Terça-feira, dia 8, 22 horas, a longa mesa retangular de madeira posicionada na varanda reunia a seu redor parlamentares que são adversários renhidos no plenário, em um clima de entrosamento azeitado como nunca. Cerca de 30 deputados atenderam ao convite do anfitrião, o senador Eunício Oliveira, do PMDB do Ceará, para discutir seu futuro em um jantar na residência oficial da presidência do Senado, na Península dos Ministros, em Brasília. O encontro serviu para combinar a votação da reforma política na Câmara. Na verdade, significou mais que isso. Foi uma celebração da manutenção do statu quo político, tão ameaçado pelas descobertas e consequências das investigações da Operação Lava Jato. Pairava no ambiente o consenso em torno da aprovação de um fundo de dinheiro público para financiar as eleições de 2018, algo impensável meses atrás, que se tornou possível. A concordância e o congraçamento eram tamanhos que a nota crítica da reunião recaiu sobre um tema lateral, a qualidade do vinho servido por Eunício, dono de um patrimônio declarado de R$ 99 milhões e enófilo sofisticado. Os parlamentares se ressentiram de não ter sido abastecidos com taças do vinho argentino Nicolas Catena Zapata (cerca de R$ 600 a garrafa) disponível na adega do peemedebista, mas por um Alamos Catena, que é “categoria de supermercado” da mesma bodega (R$ 60 a garrafa). “É o instinto de sobrevivência”, resumiu um ministro.

O petista Vicente Cândido, relator da proposta de reforma política na Câmara que inclui o fundo, confraternizou com os tucanos Shéridan Oliveira, deputada, e José Serra, senador. Beberam do mesmo vinho os ex-presidentes da República José Sarney (investigado em um inquérito derivado da Lava Jato no Supremo), do PMDB, e Fernando Collor, do PTC (cinco inquéritos), os senadores Renan Calheiros (11 inquéritos), Romero Jucá (cinco inquéritos), Jader Barbalho, do PMDB, e o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, do DEM (um inquérito). Collor e o senador Armando Monteiro, do PTB, chegaram a suscitar a discussão sobre se não seria melhor tentarem voltar com as doações empresariais. Mas foram rapidamente dissuadidos da ideia, com o argumento de que era preciso apresentar à sociedade algum modelo “novo” – desde que capaz de manter tudo como hoje. Ameaçados pela Lava Jato – a classe política como um todo e parlamentares em particular – se alinharam para construir a saída. No dia seguinte, a comissão especial da Câmara aprovou, por 25 votos a 8, a criação de um fundo de R$ 3,6 bilhões para custear as campanhas do ano que vem.

Batizado com o republicano nome de Fundo Especial de Financiamento da Democracia (FFD), esse cofre eleitoral vai custear as campanhas de todos os candidatos ao Executivo e Legislativo em 2018. Quando o assunto é dinheiro para eleição, quase nenhum político é contra. O texto prevê que 0,5% da receita corrente líquida da União, ou seja, R$ 3,6 bilhões, financie os que aspiram a um mandato. Uma projeção de gasto extra exatamente no momento em que a equipe econômica ensaia anunciar que a meta fiscal deste ano será revista para um déficit superior a R$ 139 bilhões. Os políticos já dispõem do fundo partidário, que auxilia nas despesas eleitorais, mas o valor previsto para ser repassado às legendas neste ano foi de R$ 819 milhões, considerado baixo pelos deputados. “A sociedade não quer que empresa doe. Mas agora também não quer que o financiamento seja público. Vocês querem o que, então? Custear a eleição com dinheiro público não é gasto, é investimento em democracia”, defendeu o presidente da comissão, deputado Lúcio Vieira Lima. “Vai lá perguntar na Venezuela, se eles tivessem a opção, se não iam querer que o dinheiro do contribuinte bancasse a democracia lá.”

Há outras questões relevantes a serem discutidas em uma reforma política. A cláusula de barreira e o fim das coligações em eleições para deputado e vereador acabariam com graves distorções do sistema. Mas esses dois pontos e outros, como a possibilidade de partidos se unirem em federações, são temas que poderão ser votados em outra proposta, que partiu do Senado e está sendo relatada na Câmara pela deputada tucana Shéridan Oliveira. Mas essa matéria, é claro, conta com muito menos empenho dos parlamentares. Receoso da impopularidade, o Palácio do Planalto ficou longe. “O governo considera que a reforma política tem força própria no Congresso Nacional”, diz o ministro da Secretaria de Governo, Antonio Imbassahy. A reforma política dos congressistas está resolvida. A reforma política que interessa aos brasileiros pode esperar.

Deixe um comentário:

Formulário de Comentários






  • Enquetes
    Desculpe, não há enquetes disponíveis no momento.
  • Conheça a Creche Escola Luluzinha

  • Contatos

    E-mail: assessoriaavancada@live.com
    Telefone: 98 3236-1351
    Celular: 98 8722-6094

    Arquivos

    Posts ordenados por data de publicação.